Entrevistas

01 Fevereiro 2021

Rui Almeida: “O caminho da Angiologia e Cirurgia Vascular para o futuro implica fortes investimentos a nível de recursos humanos e disponibilidade tecnológica”

Os serviços e unidades de Angiologia e Cirurgia Vascular existentes em Portugal estão bem-dotados de recursos humanos e técnicos. O presidente do Colégio de Angiologia e Cirurgia Vascular da Ordem dos Médicos e diretor do Serviço de Angiologia e Cirurgia Vascular do Centro Hospitalar Universitário do Porto, Rui Almeida, considera, no entanto, que o esforço para criar novas unidades em áreas carenciadas e aumentar a capacidade dos serviços instalados também é importante.

 

JORNAL MÉDICO (JM) | Considera que o acesso à especialidade de Angiologia e Cirurgia Vascular está a ser feito em moldes apropriados?

Rui Almeida (RA) | A Angiologia e Cirurgia Vascular é uma especialidade médico-cirúrgica responsável pelo diagnóstico e tratamento das doenças das artérias, veias e linfáticos com exceção dos vasos intracranianos e cardíacos. O acesso à especialidade é feito através de exame nacional anual, que é comum a todas as especialidades. As vagas são definidas de acordo com parecer elaborado pela Direção do Colégio, ouvidos os serviços sobre as suas capacidades formativas, e posteriormente aprovadas pela Ordem dos Médicos e pelo Ministério da Saúde.

JM | Tendo em conta os doentes existentes em Portugal, julga que a capacidade formativa atual está a suprir as necessidades existentes?

RA| A capacidade formativa atribuída tem em conta, não só as necessidades assistenciais, mas também, e para ser feita de uma forma rigorosa, a capacidade formativa dos serviços que é pré-estabelecida por critérios definidos pela Direção do Colégio e aprovada pela Ordem dos Médicos. Regularmente, a capacidade formativa dos serviços é aferida por visitas que a Direção do Colégio, conjuntamente com internos da especialidade nomeados pela Ordem dos Médicos, realiza aos diferentes serviços. O número de especialistas que têm vindo a ser formados será suficiente para as necessidades do país, atendendo ao facto de, na especialidade em causa, um rácio de dois especialistas por 100 mil habitantes ser o rácio considerado adequado. Importante é que a sua colocação nos hospitais seja a mais descentralizada possível e tenha em conta a carta de referenciação hospitalar de Angiologia e Cirurgia Vascular.

JM | De que forma considera a formação ajustada à realidade encontrada na prática pelos especialistas?

RA| Sou de opinião de que não devemos alterar os critérios que definem as capacidades formativas dos serviços definidos pela Direção do Colégio e aprovados pela Ordem dos Médicos. Os especialistas entretanto formados têm revelado elevadíssima qualidade como é atestado pelas suas performances nos exames finais de Internato Médico, bem como nos exames europeus (Fellow of European Board of Vascular Surgery), em que os cirurgiões formados em Portugal apresentam uma taxa de aprovação elevadíssima.

JM | Quais as principais necessidades de que padecem os serviços nacionais?

RA| Temos de saber distinguir os pequenos serviços dos grandes serviços, estes últimos com um quadro médico adaptado às necessidades da população que servem em termos de assistência programada e urgente ao longo dos 365 dias do ano. Nestes, os meios humanos são diferentes em número e diferenciação, em necessidades de tempos de bloco operatório e equipamentos técnicos de diagnóstico e terapêutica também. Uma maior ligação entre os pequenos serviços e os serviços de referência será uma forma mais  racional de melhor servir as populações. De referir que assistimos hoje a uma tendência internacional de existirem menos serviços e de maior dimensão, de forma a que a oferta terapêutica seja a mais alargada e diferenciada possível.

JM | Os recursos – quer físicos, quer materiais – existem em número suficiente para as necessidades apresentadas?

RA| De uma forma geral, os serviços e unidades de Angiologia e Cirurgia Vascular existentes estão bem-dotados de recursos humanos e técnicos. O importante é prosseguir o esforço para criar novas unidades em áreas carenciadas e aumentar a capacidade dos serviços instalados.

JM | Qual o atual estado da arte em matéria de diagnóstico?

RA| O sistema público e o privado, de uma forma geral, já respondem em tempo útil às necessidades da população em meios auxiliares de diagnóstico.

JM | Qual o atual número de especialistas Angiologia e Cirurgia Vascular em Portugal?

RA| Em Portugal, estão inscritos no Colégio de Angiologia e Cirurgia Vascular 215 especialistas (Região Norte 97, região Centro 16 e região Sul 102) e 40 internos.

JM | Considera que os médicos de família estão capacitados para detetar os problemas vasculares e encaminhar para a especialidade e para fazer o acompanhamento do doente a posteriori?

RA| Devido a um maior cuidado no ensino da semiótica e patologia vascular nas faculdades de Medicina, a par de um crescente numero de ações de formação para médicos de Medicina Geral Familiar, muitas delas com o apoio da industria farmacêutica, a par da necessidade que os serviços foram descobrindo de uma relação de proximidade e colaboração com os centros de saúde das suas áreas de influência, têm sido  estabelecidos  protocolos de referenciação das diferentes patologias que têm contribuído para a melhoria do despiste e orientação dos doentes vasculares.

JM | Acredita que há necessidade de maior formação dirigida aos especialistas de MGF?

RA| Como dizia atrás, a ligação dos cirurgiões vasculares aos médicos de Medicina Geral e Familiar tem vindo a melhorar nos últimos anos (maior conhecimento dos aspetos clínicos e terapêuticos da nossa especialidade), mas isto não quer dizer, de forma alguma, que tudo está feito. A criação de protocolos de referenciação dos doentes vasculares das unidades de cuidados de saúde primários   para unidades e serviços de cirurgia vascular tem de ser permanentemente atualizada, tendo em vista o estado da arte, e tal pressupõe uma maior relação de trabalho conjunto.

JM | Que caminho ainda há por desbravar no futuro de Angiologia e Cirurgia Vascular?

RA| O caminho da Angiologia e Cirurgia Vascular para o futuro implica fortes investimentos a nível de recursos humanos e disponibilidade tecnológica:

  1. A) Tratar os doentes com mais prontidão, dando-nos acesso a mais tempo de bloco operatório e aumentando o número de camas de internamento nos grandes serviços dos hospitais universitários.
  2. B) Disponibilização de blocos operatórios com salas híbridas de forma a minimizar a exposição a radiação dos profissionais e dos doentes e aumentar a qualidade e diferenciação dos tratamentos a realizar.
  3. C) Investir fortemente em campanhas antitabágicas e de desabituação tabágica, promoção do combate ao sedentarismo e obesidade através da realização de exercício físico e o diagnóstico precoce e acompanhamento regular do doente são fatores de promoção de saúde pública vascular fundamentais, dos quais colheremos frutos a longo prazo.
  4. D) Acompanhar e promover os desenvolvimentos da engenharia biomédica no desenvolvimento de dispositivos médicos facilitadores do tratamento da grande patologia vascular de forma menos agressiva, alargando o número de doentes suscetíveis de serem tratados e capazes de serem reintegrados numa vida ativa.

Estas são para mim as linhas de rumo da nossa especialidade de Angiologia e Cirurgia Vascular, que adivinho com um futuro promissor.