Atualidade

15 Fevereiro 2021

Roger Rodrigues: “O exame físico será sempre fundamental no seguimento da patologia venosa”

Não obstante os avanços tecnológicos e de a telemedicina ter estado em evidência no contexto de pandemia, nada substitui o contacto direto entre médico e doente. É esta a convicção do especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular Roger Rodrigues, expressa num artigo a propósito do workshop “Duelos Digitais na Doença Venosa Crónica”, que ministrou no âmbito da Porto Vascular Conference e em que o foco foi a partilha de experiências com a Medicina Geral e Familiar.

A Porto Vascular Conference é, desde há vários anos, um evento que reúne algumas das maiores personalidades nacionais e internacionais na área da Angiologia e Cirurgia Vascular, apresentando sempre uma grande qualidade organizativa e científica. É um evento onde também participam internos e especialistas em Medicina Geral e Familiar (MGF), uma vez que a patologia vascular venosa e arterial faz parte da sua prática clínica diária.

Desta forma, iniciativas como o workshop “Duelos Digitais na Doença Venosa Crónica”, apresentado na conferência, permitem de uma forma interativa, dinâmica e divertida adquirir e consolidar conceitos relativos à patologia venosa. Este workshop, num formato inovador, permite ultrapassar as barreiras físicas atualmente existentes e aproximar duas especialidades que se complementam. A apresentação deste workshop foi filmada num estúdio por uma equipa de profissionais audiovisuais, o que demonstra por parte da nossa equipa uma vontade de proporcionar aos participantes uma experiência que, além da qualidade científica, é visualmente agradável. O workshop termina com um quiz dando um carácter competitivo a este evento e uma motivação extra para os participantes estarem focados em todos os momentos da apresentação.

A Doença Venosa Crónica é uma patologia muito prevalente que continua a ser subdiagnosticada e subtratada, pelo que, com este tipo de eventos, procuramos reforçar alguns aspetos que podem contribuir para a melhoria dos cuidados a estes doentes. Reconhecemos que as unidades de saúde primária desempenham um papel de extrema importância não só no tratamento, mas também na referenciação de doentes com esta patologia e, como tal, procuramos “artilhar” os especialistas de MGF de modo a facilitar a sua tarefa. Pretendemos que este workshop seja igualmente um espaço de partilha de experiências e de esclarecimento de dúvidas. Acreditamos que esta proximidade seja a chave para o sucesso.

Os cuidados de saúde primários têm um papel de extrema importância na abordagem da Doença Venosa Crónica, pois é em primeiro lugar aos médicos de família que os doentes expõem a sintomatologia e são eles que fazem o diagnóstico, instituem a terapêutica médica e referenciam para os as unidades hospitalares quando há indicação cirúrgica ou dúvidas sobre a sua realização.

O tratamento dos estadios mais avançados da doença, que corresponde ao aparecimento de uma úlcera venosa, exige um seguimento longo, em muitos casos, pelo médico assistente. O volume de doentes e a distribuição dos serviços de cirurgia vascular tornam virtualmente impossível a realização de cuidados de tratamento local das feridas a estes doentes nas unidades hospitalares, desempenhando as equipas médicas e de enfermagem das unidades de saúde locais um papel fundamental.

A Doença Venosa é uma patologia crónica e evolutiva, pelo que carece de uma vigilância definitiva e sistemática, independentemente de o doente ter ou não sido submetido a terapêuticas médicas ou cirúrgicas, sendo preponderante o acompanhamento realizado por parte do médico de família.

Por outro lado, a digitalização da saúde já constitui uma realidade há alguns anos. A maioria dos hospitais está munida de softwares de gestão sofisticados que permitem aumentar a produtividade, a organização e ainda garantir a segurança necessária no tratamento de dados do paciente. Usamos com alguma frequência plataformas para a partilha de imagens de exames complementares de diagnóstico entre hospitais do SNS e pontualmente são realizadas videochamadas para a discussão de casos mais complexos com especialistas de outros países. A pandemia e consequente confinamento vieram potenciar este tipo de ações e demonstrar que é possível realizar, por exemplo, congressos com grande qualidade sem sairmos de casa ou do nosso local de trabalho. Estamos definitivamente numa era digital que quebrou fronteiras, otimizou o nosso tempo e facilitou o nosso trabalho.

A telemedicina, apesar de parecer um conceito recente, teve o seu início na década de 50 em alguns países, mas conheceu avanços muito significativos nos últimos anos. No passado, alguns hospitais utilizavam televisões para chegar a pacientes em locais remotos. Com o avanço dos meios de comunicação, o contacto entre médico e paciente ou entre os profissionais de saúde ficou mais simples e prático, dado que a relação e a troca de informações foram ampliadas com o telefone fixo, depois com os telemóveis, e tornaram-se ainda mais rápidas com a internet. Computadores, tablets e smartphones facilitam as videoconferências e o avanço da Inteligência Artificial veio tornar todos estes processos mais simples.

Mas, esta pandemia também veio mostrar que, por mais avanços tecnológicos que surjam nos próximos anos, o contacto direto entre o médico e o doente é insubstituível. A relação médico-doente candidata a património imaterial da humanidade vai muito para além de uma conversa telefónica ou de uma videochamada e o exame físico será sempre um elemento fundamental no seguimento do doente com patologia vascular.