Entrevistas

08 Janeiro 2021

Joana Afonso: “Ainda há quem desvalorize o comprometimento funcional da Doença Venosa Crónica”

A Doença Venosa Crónica ainda é vista como uma questão estética, desvalorizando-se o comprometimento funcional que implica. Esta é a visão da especialista em Medicina Geral e Familiar Joana Afonso, da Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados de Cinfães, que, em entrevista, partilha como tem sido a gestão do diagnóstico e tratamento da Doença Venosa Crónica no atual contexto pandémico.

 

JORNAL MÉDICO (JM) | Na sua opinião, qual é a importância do diagnóstico precoce na Doença Venosa Crónica (DVC)?

Joana Afonso (JA) | É inquestionável a importância do diagnóstico precoce da Doença Venosa Crónica quando temos em consideração que mais de um terço da população portuguesa apresenta esta patologia. Apesar de crónica, quando orientada nos estádios iniciais, poderá travar-se o seu agravamento, mantendo a qualidade de vida dos respetivos doentes.

 

JM | No contexto da DVC, quais são as tipologias mais frequentes nos utentes do serviço?

JA| Vulgarmente, os utentes procuram os serviços de saúde quando apresentam varizes visíveis, inflamadas, com apresentação de edemas marcados e, por vezes, dolorosos. Ou seja, já em fases mais avançadas e graves da doença.

 

JM | Como vê o papel dos cuidados de saúde primários como linha da frente no diagnóstico junto dos utentes?

JA| É crucial o papel dos Cuidados de Saúde Primários visto que são, frequentemente, a primeira forma de contacto dos utentes com os cuidados de saúde. Ainda é ao médico de família que o utente mais recorre quando se trata de um quadro clínico mais arrastado.

 

JM | Como tem sido o impacto da Covid-19 no tratamento e diagnóstico da DVC?

JA| Em tempo de pandemia COVID-19, a Doença Venosa Crónica acaba por ficar um pouco para segundo plano. Por um lado, estamos numa época em que a teleconsulta se impôs como um método de avaliação clínica, o que impede a observação das lesões e consequente diagnóstico. Acresce ainda o facto de os utentes recearem ser avaliados em consultas presenciais, pelo medo de contágio, acabando, mais frequentemente, por procurar os cuidados de saúde quando os sintomas estão mais virados para patologias que possam ser suspeitas de infeção pelo vírus.

 

JM | Como tem sido o acesso dos doentes aos tratamentos nesta altura?

JA| Atualmente, já estão a ser retomadas as consultas presenciais nas unidades de saúde, o que permite o acesso à avaliação clínica, bem como à orientação para a realização de exames complementares de diagnóstico ou mesmo a referenciação para a consulta de especialidade hospitalar. No entanto, ressalvo a crescente lista de espera para a avaliação em consulta hospitalar, ou até mesmo, para a realização de intervenções cirúrgicas, em consequência da pandemia de COVID-19.

 

JM | Este contexto atípico pode facilitar uma implementação mais consistente da digitalização na saúde?

JA| A digitalização na área da saúde acaba por evidenciar as desigualdades sociais que ainda se fazem sentir no nosso país. Atualmente, trabalho também numa unidade de saúde inserida num contexto mais rural onde a população, maioritariamente envelhecida, tem dificuldade em adaptar-se às novas tecnologias. Mesmo a rede de telecomunicações, por vezes, impede o regime de teleconsulta.

 

JM | Como vê o impacto da pandemia no futuro dos tratamentos da DVC?

JA| A pandemia Covid, invariavelmente, acabará por culminar no atraso do diagnóstico e, como já referido, no tratamento da doença nos estádios mais precoces. Isto fará com que os doentes procurem os cuidados de saúde em graus de doença mais avançados, com um impacto na qualidade de vida muito maior.

 

JM | Que desafios ou dificuldades enfrenta na sua atividade diária no âmbito da DVC?

JA| Acaba por ser um pouco frustrante quando se trata de uma patologia sobre a qual poderíamos ter um impacto positivo e, por força de todo o contexto citado, quando chegamos a intervir, já o fazemos numa fase tardia. Infelizmente, ainda há quem considere também a Doença Venosa Crónica uma questão estética e desvalorize o comprometimento funcional, deixando avançar para as fases mais severas da doença.