Entrevistas

15 Dezembro 2020

“É expectável que haja um aumento de doentes com doença venosa crónica”

Devido à pandemia de Covid-19, estão a ser pedidos menos exames complementares de diagnóstico e os doentes com Doença Venosa Crónica estão a chegar com formas mais graves de doença. Esta é a leitura do presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Flebologia, José Pereira Albino.

 

JORNAL MÉDICO (JM) | Como é que a Sociedade Portuguesa de Flebologia vê o impacto que a Covid-19 tem tido no tratamento da Doença Venosa Crónica?

JOSÉ PEREIRA ALBINO (JPA) | A Sociedade Portuguesa de Flebologia foi criada há cerca de ano e meio e ainda está a dar os seus primeiros passos como sociedade independente. Ela foi formada, a partir da Sociedade Portuguesa de Angiologia e Cirurgia Vascular, dada a necessidade de se abranger a vasta área da parte venosa do sistema circulatório, que, cada vez mais, está a tornar-se independente em relação à restante patologia vascular.

Como em todas as outras especialidades, a pandemia relacionada com a Covid-19 teve um impacto enorme neste setor. As varizes, a principal incidência da Flebologia, considerada infelizmente, por grande parte dos doentes e mesmo dos colegas, como patologia minor e de caráter estético, se não forem orientadas no devido tempo originarão formas graves de doença (úlceras de perna com marcada incapacidade) e serão, nestes tempos, também uma fonte de prováveis surtos de trombose venosa superficial ou mesmo profunda. No período de maior confinamento, todas as atividades diagnósticas e terapêuticas destas patologias foram suspensas o que, em algumas partes do país, levou ao aumento progressivo das já enormes listas de espera para cirurgia. Os doentes que surgiram foram unicamente os consequentes a tromboses venosas profundas / tromboembolismo pulmonar e, muitas vezes, em fases avançadas de doença. Contudo, nos últimos meses, a atividade tem sido retomada, dado que a maioria destas cirurgias pode ser realizada em ambulatório.

 

JM | Como tem sido o acesso dos doentes aos tratamentos nesta altura?

JPA | Do ponto de vista cirúrgico e como já afirmámos, a retoma está a fazer-se progressivamente. Contudo, em termos de diagnóstico, temos também assistido a uma diminuição dos pedidos de exames complementares, nomeadamente ecodopplers, fundamentais na definição da patologia em causa, fruto do que já dissemos, ou seja, de ser uma patologia que se pensa que não originará complicações. Contudo, chamo a atenção que nela estão também envolvidas as tromboses venosas profundas e o tromboembolismo venoso em geral, que necessitam de diagnóstico e acompanhamento especializado e estão muito em evidência nos casos mais graves de infeção por Covid-19.

 

JM | Na sua opinião, tem havido uma boa articulação com os cuidados de saúde primários?

JPA | Esse trabalho foi feito até ao início da pandemia, havendo uma articulação perfeita e um interesse marcante nesta patologia. Hoje em dia, há menos referenciação, mas penso que será uma situação transitória. Com o controlo da pandemia, esta articulação vai retomar-se apesar, claro está, de alguns doentes passarem a estar já em formas mais avançadas, o que implicará terapêuticas mais complexas.

 

JM | O sistema de teleconsulta tem sido usado? É uma solução benéfica?

JPA | Foi, de facto, usada na fase de confinamento total, mas é bastante difícil de avaliar um doente, sobretudo com edema dos membros inferiores, através deste tipo de consulta. Ou são doentes crónicos já conhecidos e em que o diagnóstico pode ser realizado, pois há um conhecimento preciso da patologia de base, ou então esta metodologia torna-se difícil, pois a maioria das situações necessita de um diagnóstico presencial e da realização de um ecodoppler.

 

JM | Como já estamos há algum tempo a lidar com esta situação pandémica, já se conseguiu regularizar a atividade cirúrgica?

JPA | Esta atividade está a ser realizada progressivamente, na medida em que a maioria pode ser feita em ambulatório e, portanto, evitando o internamento. Mesmo assim, existe a recusa de muitos doentes, que preferem esperar por fases melhores do quadro pandémico.

 

JM | Este contexto atípico que vivemos pode facilitar uma implementação mais consistente da digitalização na saúde?

JPA | Dada a multiplicidade de tratamentos que existem na Flebologia, tanto nas varizes como na doença trombótica venosa, estavam a ser implementadas a nível internacional várias bases de dados sobre as diversas formas de tratamento desta doença. Essas bases de dados continuam ativas e, mais cedo ou mais tarde, irão dar resultados quanto à validade de alguns métodos. Claro que nesta fase estão com menos atividade, mas será uma fonte de informação futura muito fidedigna.

 

JM | Como vê o impacto da pandemia no futuro dos tratamentos da DVC?

JPA | A Covid-19 tem, sem dúvida, um marcado componente trombótico que, infelizmente, ainda não está bem explicado. Assim, o número de tromboses venosas profundas certamente irá aumentar, bem como as suas repercussões, pelo que é expectável que haja um aumento do número de doentes com esta patologia. A interrupção do tratamento cirúrgico das varizes irá originar, certamente, uma atuação em formas mais avançadas da doença, nomeadamente em doentes com lesões tróficas e úlceras de perna, o que originará pós-operatórios mais prolongados e incapacidade mais marcante.