Entrevistas

16 Março 2021

Dr. Luiz Santiago: “Com o confinamento, o aumento da pressão venosa é maior”

A pandemia veio trazer um novo paradigma no acompanhamento dos doentes com Doença Venosa Crónica. Luiz Santiago, médico especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF) da USF Topázio e da Clínica Universitária de MGF da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, considera que as consultas centradas na pessoa são uma das soluções para superar a distância entre médico e doente.   

Jornal Médico (JM) | No contexto da Doença Venosa Crónica (DVC), quais são as tipologias mais frequentes nos utentes do serviço que encontra na sua prática diária?

Luiz Santiago (LS) | Temos vários estudos sobre a importância que as pessoas atribuem à patologia varicosa e que vai desde o “quase nada” a uma preocupação fundamentalmente estética nos mais jovens e uma preocupação sobretudo funcional ou patológica nos mais idosos. Enquanto há pessoas, em particular os jovens, que consideram que as questões estéticas já são problemáticas porque as prejudicam, outras pessoas, particularmente as que vivem em meios rurais, só se preocupam mais tarde, quando os troços varicosos já estão bem estabelecidos, quando começam a ter vizinhos ou vizinhas que tiveram a sua primeira úlcera varicosa ou quando começam a ter a sua dermatose crónica por causa de todos os problemas que a pressão venosa pode provocar.

Cada vez mais, porque já se habituaram a ver as pernas com varizes, o que preocupa as pessoas são questões relacionadas fundamentalmente com o que as perturba mais na sua vida diária, como, por exemplo, a dor ou não dormirem; tudo o resto passa-lhes um pouco ao lado.

JM | Como vê o papel dos cuidados de saúde primários como linha da frente no diagnóstico da DVC junto dos utentes?

LS | A questão começa um pouco mais cedo: como prevenir.  Quando começamos a perceber que, geneticamente ou familiarmente, existe tendência varicosa – e para isso é preciso que haja uma boa classificação e que atempadamente todos os médicos realizem a classificação de patologia varicosa –

a questão é saber o que estrategicamente é importante e na prática o que vamos fazer. É necessário passar informação às pessoas sobre o que devem fazer, por exemplo, ao final do dia para haver menos pressão ortostática, a utilização adequada das meias, nomeadamente as de descanso, sem ir logo para as meias de contenção, praticar atividade física e que tipo de atividade deve ser praticada, bem como, no trabalho, quais são as condições ergonómicas para protelar o aparecimento de pressão venosa. Cada vez mais as pessoas trabalham sentadas, o que faz com que se mexem menos e se esqueçam de coisas simples como, em vez de estarem sentadas muitas horas com as pernas paradas, fazerem algum tipo de exercício, nem que seja cinco minutos por hora, para que possa haver redução desta pressão, quer porque mexem os músculos, quer porque utilizam as meias de contenção. É preciso que as pessoas saibam qual é o tipo ideal de instrumentos de suporte.

JM | Como tem sido a sua experiência com o acesso dos doentes aos tratamentos nesta altura de pandemia?

LS | Neste momento, a questão é muito complicada. O problema é que a patologia varicosa continua a existir; ainda por cima, com o confinamento, estar em posição sentada é mais frequente, o aumento da pressão venosa vai ser maior, portanto, vamos ter um boom não só destes casos, mas também de outros que vão originar uma maior mortalidade a prazo. Neste momento, é necessário que todas as consultas que estavam marcadas e situações complicadas sejam intervencionadas, nem que seja à distância, através de um telefonema, e que as pessoas percebam a importância da patologia dos membros inferiores, arterial e venosa. É importante utilizarem meios de suporte e não estarem à espera que haja doença complicada e marcada, com implicação na sua qualidade de vida futura, para fazerem as medidas preventivas da evolução da doença. O que esta pandemia nos está a mostrar é muito simples, é a necessidade de, através de outras formas de comunicação, se fazer o contacto com as pessoas, perguntando como estão, para prevenir situações complicadas no futuro. Reconheço que a maior parte dos meus colegas está em situação de burnout, por causa da grande quantidade de trabalho à distância. A maior parte das pessoas não tem noção do que é exigido hoje em dia aos médicos, em particular aos especialistas de Medicina Geral e Familiar. O seguimento das pessoas que estão infetadas está a ser feito por contactos telefónicos e perceber como a pessoa está a evoluir sob o ponto de vista da Covid desencadeia uma série de perguntas sobre medicação, depressão ou ansiedade que levam a que um telefonema vá, muitas vezes, além dos 15 minutos, porque as pessoas têm muitas perguntas e não é fácil para o médico dizer que não vai responder ou ouvir.

JM | Considera que uma implementação mais consistente da digitalização na saúde pode ser uma ajuda considerável no diagnóstico da doença?

LS | Estamos num paradigma e vamos entrar noutro. Parece-me que vamos sair disto com uma diferente forma de fazer medicina, provavelmente vamos fazer muitas consultas com auscultadores à distância. É provável que apareçam muitos aparelhos para medir indicadores e fatores que podem ser medidos com as pessoas em casa, como a medição da tensão arterial feita em casa com transmissão em tempo real, verificação de eletrocardiogramas através de smartphones, balanças que transmitem imediatamente o peso e a impedância das pessoas, os próprios pacemakers que, hoje em dia, já transmitem à distância a frequência e o ritmo, bem como fotografias. Há um conjunto de tecnologias que podem ser usadas e vão fazer com que as pessoas não tenham de se deslocar tanto, gastando menos tempo para ter uma consulta. Mas, há uma coisa fundamental que tem de se manter e que é a relação do médico e da pessoa que o consulta. Porque muitos casos que vemos hoje em dia, além da patologia orgânica que possa existir, têm a ver com patologia ansiosa e depressiva resultante destes enclausuramentos que levam as pessoas a ficar em casa sem comunicar, bombardeadas por notícias, com medo da doença e com temores de não saber exatamente o que vai acontecer e de como vai impactar a sua qualidade de vida atual e futura.  O medo é o grande problema.

JM | O que pode ser melhorado na informação que se dá à população nos cuidados primários sobre a DVC?

LS | O discurso do médico é no sentido de modificar algo no presente para não ter complicações no futuro. O que as pessoas querem é ter um tratamento que resolva tudo. Impossível.  E o que recomendamos é que não fiquem todo o dia em pé ou sentadas, que usem meias e que todos os dias façam algum movimento. Mas, as pessoas fazem escolhas que são, muitas vezes, empíricas: um amigo diz que foi bom para ele, então também é bom para mim. A maneira como veem a informação hoje em dia é muito complexa, porque o que o médico indica para tratamento implica a responsabilidade dele e do doente e isso não lhes interessa muito, porque querem algo que as ponha melhor, tal como fez com outras pessoas.  A questão é como é que nós adaptamos a medicina às pessoas e qual a importância que o doente dá à patologia e à terapêutica.

JM | Há alguma outra questão que gostasse de abordar relativamente à DVC?

LS | Gostava de realçar esta questão da relação médico-doente baseada em empatia, quer por parte do médico, quer da pessoa em relação ao seu médico. Consultas que são centradas na pessoa, ou seja, respondendo mesmo às perguntas reais que as pessoas têm, com uma agenda que, muitas vezes, está escondida e que temos de ir buscar, para que as pessoas saiam da consulta com respostas para os seus problemas e não que eu saia contente porque fiz um diagnóstico e indiquei uma terapêutica.  Ao mesmo tempo com empoderamento, em que a pessoa participa no ato de definição tática do que deve ser feito, aliado a uma boa comunicação e verificação no final, para ver se a pessoa percebeu o que foi dito. Com isto, nós vamos ter algum ganho, quer presencialmente quer à distância, num exercício da medicina que julgo vai ser muito diferente do que hoje temos. A medicina não é apenas uma técnica, é também um conjunto de sistemas informativos de reconhecimento da doença, apreensões, expetativas, medos e receios que têm de ser resolvidos.